Colóquio com Manel Cruz


Manel Cruz, em xpto:
 um caso de Amor social

No dia 17 de Junho, pelas 13 horas e 45 minutos, a sala Beethoven da Academia de Música de Costa Cabral acolheu, para mim, o letrista quiçá mais influente, sobretudo, pela linguagem familiar usada por tantos grupos de pop/rock, na actualidade.

O motivo fora o programa do 10º Ano de Português, do Curso Integrado, que recomenda leituras obrigatórias. E os alunos acharam por bem criar um Plano de Leitura das letras de algumas bandas do pop/rock. Coordenada pela aluna Cátia Pinto,

a turma conversou com o Manel, já que queria saber mais, e preparou uma entrevista semi-estruturada com 14 perguntas, embora, no desenrolar do Encontro, outras lhe pudessem ser colocadas. As 14 apenas existiam, à partida, para haver uma espécie de guião, e a conversa não se perder algures...

Uma vez mais, o diálogo entre eles (eu funcionei de novo como uma espécie de gravador) foi muito bom. Primeiro, de pequenas notas autobiográficas, explicando o entrevistado não ser bem um designer autodidacta, uma vez ter frequentado a Escola Secundária Soares dos Reis e a Faculdade de Belas-Artes, não tendo finalizado o Curso dito Superior. Mas que há outras escolas, além da Escola, havendo delas uma rede na Internet...  Já, musicalmente falando, disse não ter nenhuma, mas do modo mesmo se pode aprender com amigos... Que

design o ajuda na música e vice-versa. Por vezes, se não está capaz de acabar uma   coisa, viajar por outra arte, abre caminhos e a mente, por linhas curvas, lá encontra a chave. Sobre influências musicais,

lembrou passagens dos Ornatos Violeta pela Escola de Jazz do Porto, em concerto, embora influências-influências jazzísticas, apenas as houvesse o Peixe. Psicanalisando-se, ao escrever, à pergunta sobre a grande questão nos textos dos Ornatos ser o Amor, o autor referiu os subconjuntos: o amor e o seu contrário, os desamores, o amor por nós próprios e o amor social... «Quando vamos a algum sítio, gostamos que nos sejam simpáticos. Por ex., a rapariga da caixa do Pingo Doce. Não queremos que nos ame, mas precisamos daquele sorriso.» Sobre o fim dos Ornatos,

achou-o natural. Como o fim do Amor. Um queria fazer um programa de televisão, outro não, um outro reclamava que por aquela frase ou acorde merecia entrar na ficha técnica, enquanto compositor... Mas, o mais importante, disse: continuamos amigos. E isso só foi empolado, «como o maior desperdício dos últimos dez anos», porque já dávamos dinheiro a muita gente. Editora, management... Relativamente aos Pluto

quanto à figura da Mãe ser ou não nota autobiográfica... Referiu que é aquela que nos protege... Gritar - meu Deus! é a mesma coisa que gritar Mãe! E que teve

sempre uma relação especial com a sua, alentejana de origem. Desde pequeno, canta com ela, a duas vozes. E isso o levou à Música: um som vibrando com o outro. Finalmente, por referência ao seu projecto caseiro Foge, foge, Bandido, acentuou que não

responde às obrigações dos agentes e editoras, tendo muito mais liberdade criativa. Vendeu muito menos exemplares do que nos Ornatos, mas se ali o grupo havia uma percentagem de 9%, agora tem uma de 90%, pois dispõe apenas de um elemento na rectaguarda, em missão de aprovisionamento: agenda de concertos, etc. Sobre o som de que mais gosta, disse que depende, e

referiu um exemplo: o considerado «mau» (pela crítica) do álbum Blood Sugar Sex Magik dos Red Hot Chili Peppers é tão bom, aquilo não ser limpo... Já teve uma experiência em que o som de uma gravação em cassete é que era fixe. Portanto, depende. O mau pode acontecer o melhor para. Finalizando, sobre o panorama musical português,

disse estar bem e recomendar-se, pois já não depende tanto das grandes editoras. Qualquer um de nós pode fazer uma música, pôr na net e amanhã ter já feedback, em comentários...

O professor,
  
Vitorino Almeida Ventura