Entrevista com Ronaldo Fonseca

                            

      

                                                       vitorino almeida ventura

Das cadeiras em torno da mesa
de Ronaldo Fonseca (Peixe: avião)

         Sob proposta dos docentes de Português., no dia 17 de Fevereiro, Ronaldo Fonseca, vocalista e letrista dos Peixe: avião, deslocou-se à AMCC, para conversar com os alunos dos 10º e 11º Anos, dispostos nas cadeiras em torno da mesa do convidado. Aqui ficam algumas notas soltas que agarrei de suas respostas às perguntas que se leem nelas:
                                                        (Ao 10º Ano. Do texto jornalístico.)
1.      O autor começou por referir aos alunos o porquê dos dois pontos no nome, pelo conceito dos designers que os criaram, logo ali.       Que o nome, enquanto fachada do projeto («no meio de tantos outros foleiros atirados para a mesa»), surgiu da letra “Atiro ao alvo”, 1º tema do 1º disco: «finjo a fazer de conta/feito peixe: avião». Sedutor, pelo que continha de potencial imagético, abrindo a dois ambientes, dois elementos primordiais diferentes, a água e o ar, por lá fixou.
2.      Lisboeta, mas bracarense desde os seis anos, Roni salientou conhecer inicialmente 2 elementos da banda, por ex., só tendo visto o baterista em pessoa, na primeira gravação, pela forma laboratorial de construção dos cinco primeiros temas, na casa de cada um, partilhando riff's por e-mail..
3.      Que a banda se constitui polimusical, não se centrando num estilo, gostando muito de expandir. Por exemplo, ele, Roni, há pouco tempo começou a «descobrir» a música clássica da época romântica.
4.      Sucesso? Não. Não são os peixe: uma banda de sucesso, em sentido popular. Aliás, é uma coisa que Ronaldo tem dúvidas sobre como pode ser quantificado. No my space, pelo número de visitas? Não iria por aí. Há sempre um hype, quando um grupo emerge. Depois, passado um mês, surgem mais 20. E a atenção dispersa. Assim, a voz dos Peixe: acredita mais no ser reconhecido... Devagar. Válido será, para ele, o fazer coisas interessantes, para a banda e para um público.
5.      Sobre o 1º EP, referiu ser feito «às nossas custas e à base da nossa experiência». Como tantas bandas, no Porto, que ensaiam no Centro Comercial STOP... Melhor, a Câmara Municipal de Braga permitiu-lhes, por baixo do Estádio 1º de Maio, arrendar a um preço simbólico (25 €/mês) um estúdio, para ensaiar, às horas que lhes apetecer. Assim, por ali nascem n projetos caseiros, em que se pode pedir aos colegas do lado, um microfone, por exemplo. E tudo é também nessa partilha. A exemplo dos projetos das editoras “Amor fúria” e “Flor Caveira”, que não ligam ao perfeccionismo, tudo assentando na religiosa honestidade «com que o fazes». Com um bom computador, com um bom programa, «já consegues fazer um EP de qualidade».
6.      Relativamente à «participação musical» em 2 filmes, em “O que há de novo no amor?” e numa curta-metragem («bonita», a sair), Ronaldo Fonseca disse ter o convite partido dos realizadores. E que se constituiu um grande desafio, já que a música aí está para ilustrar, não sendo sem contexto...
7.      Esteticamente, no entanto, foi mais tocado pela 2ª experiência, da curta, uma vez que aí a cena lhes é «maior», compondo a banda sonora. Na longa metragem, há 6 histórias (e ele gostou muito de 2), onde a sua/deles colaboração só será 'visíve'», digo, 'audível', para quem souber em que parte o Peixe: avião entra... Mas, num caso ou noutro, «será sempre em plano secundário», uma vez que num filme a parte visual comanda.
8.      Que formaram o coletivo PAD, podendo tal acrónimo ser lido como Peixe: Avião Discos, brincando um pouco... Que sim, mas não, o conceito vai mais pelos PAD's, pelos dispositivos eletrónicos. Na cena musical bracarense, foi esta uma forma de juntar a si artistas (neste momento, 6 bandas) que vão de encontro à sua visão de arte, de música, e de em conjunto atravessarem a Crise de valores, económica, etc., que agora enfrentamos. Com criatividade, com dinâmica, «tentando fazer muito com pouco». E assim levantar voo, fazendo descolar o : avião.
9.      Por relação à forma de compor da banda, revelou que começou por ser nos ensaios, «ajavardando os 5 juntos, para ver o que acontecia». Como, por vezes, nada surgia e todos saíam de lá desmotivados e massacrados, acharam por bem mudar o modo de composição, não assentando apenas na experiência e na improvisação, mas carreando para os ensaios algumas frases preparadas.
10. Hoje, salientou, os grupos têm uma vantagem, relativamente a um Passado recente. Há mais meios para gravar e difundir a música. Usando uma filosofia de bolso, citou Bernard Shaw: 'O talento é 10% de inspiração e 90% de transpiração'. E acredita mesmo nisso, como princípio. Apontou mesmo lacunas dos 10 ou 90%. Neste último caso, Amy Winehouse, que tinha um dom de Deus, mas «deu com a cabeça na parede». Naquele, o de virtuosos que «massacram e massacram as escalas», sem possuirem talento. A meio, fica o estranho caso do dubstep. E o êxito de David Guetta, pelo uso do polegar e do indicador! E. Claro que, para tudo, é preciso uma pitadinha de sorte...
11. Por outro lado, para se mostrarem em público, os novos grupos têm hoje mais dificuldade. Não há tantos concursos de bandas, uma oportunidade para dar incremento, experimentar o som, ao vivo. Nem sequer temos agora um Ministério da Cultura. É Crise, é Crise... Mas também são 900 anos de História, um país turístico, que não podemos nem devemos rasurar. No centro disto, contar com apoio(s), numa ajuda para arrancar, está mesmo difícil.
12. Last but not  least, para o Convidado Especial, o fator humano conta muito, sublinhando o que está a ser tocado. Daí, a inclusão de sopros e cordas, no próximo disco. Agora com 31 anos, Roni referiu estar a aprender piano, a arranhar as primeiras notas, pepino, pepino... Pois acredita também que da matemática musical possa sair poesia. E mais profundamente, que a Música nos faz melhores pessoas, moldando-nos a personalidade. Acresce, está agora na música, como esteve na poesia, aprendendo a desenhar palavras, para criar.

                                               (Ao 11º Ano. Do texto poético.)
13.  «Se faço poesia lírica?», repetiu. E respondeu que  não, que não se considera «um poeta de per si». No entanto, já antes de entrar para a Faculdade, em Enfermagem, escrevera coisas avulsas. Agora, se o mandassem fazer um poema, senti-lo-ia difícil, uma vez precisar de uma matriz musical, para se inspirar no sentimental dos instrumentos: numa música onde se leia, lúgubre ou alegre.
14. O Amor é o grande tema das suas, como d e todas as canções pop/rock. Uma emoção que nos caracteriza enquanto seres humanos, mais do que a razão, em sua opinião. E seu espectro vai da mais desafogada paixão até ao extremo do avesso, num perverso ódio. Por isso, diz “A espera é um arame”, no maior desespero, «esendo espetacular, quando o coração nos bate forte», enquanto em “Barro e lume” o Amor é «uma prisão». E fica tão mau quando te deixas agrilhoar!... Mas também te faz sentir Vivo, quando levas um corte.
15. Já sobre a letra “Camaleão”, salientou ter sido inspirado pela parte ambiental, que muito tem a ver com o nome da banda, curiosamente. Uma parte onírica, de tão ligada aos sonhos. «O que tu concebes, e depois ir à procura disso.» Embora ele próprio seja mais sonhador do que concretizador... E depois há aquela obrigatoriedade do que queres e tens de fazer, vestindo diferentes peles. Como quando cumpres múltiplos papéis: de aluno, de bom filho, de amigo, de colega...
16. Sem dúvida, Ronaldo Fonseca acha que devemos assumir a Vida como um risco, como está implícito na letra “Nortada”. A Vida sem riscos nem o levaria a estar presente aqui, na sala romântica, com as turmas do Ensino Secundário da Academia. É que estar na sala romântica é stressante, mas também se não houver estes sentimentos de ansiedade, exigindo uma adaptação, tudo seria demasiado cinzento. Sem respostas de mudança.
17. «Claro», “Barbitúrica Luz” é um coral, uma música diferente no conjunto do 1º disco. «Como é que eu o pensei, sem qualquer educação musical?. - Ok, de uma maneira intuitiva, que me soasse bem.» E a ausência de educação (pensa ele) pode ter sido uma vantagem, em nome da espontaneidade. Mas não tem a certeza..
18. Sobre a mesma letra, se estava ou não a pensar em efeitos de estupefacientes, quando a escreveu, Roni disse que sim. O uso das drogas expande a nossa consciência. Daí que médicos houvesse a defenderem o uso de psicotrópicos, sempre na justa medida. Os abusos é que ficam dispensáveis, no cerne da questão dessa letra ambígua.
19. Já a letra “Atiro ao alvo” pode ser lida como a procura da obra-prima, da perfeição, que não está ao alcance de todos. «Antes de mais, depende de arrancares e quereres fazer alguma coisa.»
20.  A  “folha”, essa, pode ser lida como uma personificação da cena alternativa... De que o grande público se não dá conta. Alternativa, já se sabe, vai ter dificuldade em chegar ao Grande Outro.
21. Quanto às referências com que os tentam arquivar numa prateleira, referiu que isso apenas o incomodava antes, quando estavam mais comprometidos em que os vissem definir um som particular. Há tantas bandas, que, quem etiqueta, diz mais dele próprio, daquilo que ouve do que do grupo em si: se acha analogias em Radiohead, se em Portishead, em Massive Attack, Flaming Lips, ou Pink Floyd, e assim tenta orientar-se com uma vinheta. Quando se ouve alguma coisa nova, é natural que surja a interrogação, própria ou de amigos: - Aquilo soa a quê? «Eu gostaria que fosse a Peixe: avião».
22. Finalmente, sobre o uso da eletrónica, disse ser a Atualidade.
E assim terminava a boa conversa, não sem que antes os alunos deixassem o seu contacto ao Convidado, para uma eventual colaboração no 3º disco dos Peixe:, o qual terá uma secção de cordas e outra de sopros.

                                                        vitorino almeida ventura