Adolfo Luxúria Canibal:
Mão Morta revisitada
No dia 29 de Março de 2010, pelas 18 horas, a Academia de Música de Costa Cabral teve a visita de «uma das 50 personalidades mais importantes do século XX», em Portugal, segundo o Jornal Expresso, e ainda a obra deste cantor/letrista ia a meio...
O motivo fora o programa do 10º Ano de Português, do Curso Integrado, que recomenda leituras obrigatórias. E os alunos acharam por bem criar um Plano de Leitura das letras de algumas bandas do pop/rock. Coordenada pela aluna Beatriz Mendes,
a turma questionou Adolfo, pois queria saber mais, até para fazer o relatório do Colóquio, e preparou uma entrevista estruturada com 17 perguntas, embora no desenrolar da conversa, outras pudessem ser formuladas. As 17 apenas existiam, à partida, para haver uma espécie de álbum conceptual, e não o caos.
A conversa entre eles (eu funcionei apenas como uma espécie de gravador) foi muito boa. Primeiro, com pequenas notas autobiográficas, sobre como o entrevistado libertou o Adolfo do seu peso existencial com a criatura Luxúria Canibal, de como a disciplina de Educação Musical, que contava quase nada em termos de currículo, fora ministrada pela professora de alcunha «Pencuda», dada a proeminência nasal, que o sentenciara definitivamente:
- És uma nulidade absoluta. Jamais farás alguma coisa!
Mais referiu a sua inscrição suspensa da Ordem dos Advogados, desde 1999, por apenas exercer consultadoria jurídica, e de, apenas antes, como advogado, ter sido reconhecido por um meirinho, no tribunal, uma só vez, dado que a música underground aí não chegava. E de nunca ter defendido comportamentos fora-da-lei, que muitas das personagens criadas por si advogam, embora «toda a gente tenha direito a defesa, independentemente da sua culpa». Já, hoje,
poderia viver da música, apenas. Mas que só ao fim de 20 anos os Mão Morta começaram a ganhar dinheiro. Em seguida, passou-se para o campo de análise poética,
e de como recusaram o sucesso de "Budapeste" (do álbum Mutantes s. 21, de 1992), repentino, enganador, por forma a manterem a liberdade criativa. Embora Contentes da Silva por alguns novos fãs escavarem para trás, os Mão Morta declinaram o cliché massificado em que queriam fechá-los, nessa música. A conversa
depois entrou na fase Campo de Ourique, e na herança da casa dos avós, de como aí conheceu João Peste dos Pop dell' Arte, das zangas nos Acidoxibordel, da entrada do baixista JP Moura, e do guitarrista Sapo, este pela ida de Zé dos Eclipses para os EUA, da gula que foram as drogas para a sua geração, dos títulos porno do cinema Olímpia, como caixa para as letras do álbum Vénus em Chamas, de 1994, das leituras de J G Ballard nos Mécanosphére e como mote literário do último trabalho dos Mão Morta "Pesadelo em peluche", de 2010, sobretudo, do livro Atrocity Exhibition de 1969, como premonição do universo tecnológico massificado, em que a transformação do mundo real passa a ser o real, também do desejo em Crash, novela de 1973, ligado a acidentes de automóvel, bem como da vida em ar condicionado, na relação entre pessoas, citando Heiner Muller, fechadas em condomínios de classe média/alta, entre vizinhos aparentemente sintonizados...
Depois, de como usaram apenas o estúdio como nave central, no último disco, gravando na casa de cada qual, uma vez que os Mão Morta vivem dispersos: em Braga, 3 elementos, em Coimbra, 1, e em Almada, 2... Enviando-se ficheiros por e-mail, coisa impossível de fazer há uns anos atrás... Da mudança estilística de disco para disco... Da electrónica, como gadget acessível para compor e levar para a estrada, e de como essa lhes serviu de cama para o seu Müller no Hotel Hessischer Hof, de 1997, a convite do CCB, na altura com um software que podia pifar, facilmente...
Finalmente, mas não por último, o diálogo levou-os pela mão dos movimentos de vanguarda do século XX, a propósito do seu "Há já muito que nesta latrina o ar se tornou irrespirável" de 1998, título retirado do texto Banalidades de Base do situacionista belga Raoul Vaneigem: da Internacional Letrista, reduzindo à letra a comunicação, e do dadaísmo, num trabalho de dessacralização da Arte, contemporâneo da carnificina da 1ª Guerra, que colocou em causa a mitologia daquela, e, no após, dos surrealistas, numa viagem pelo inconsciente, ou seja, pela verdade, e não já pelo lado mais representativo, para desembocar na Internacional Situacionista, da Arte como vivência quotidiana, com a revolução acolhendo a transformação abrupta do colectivo comunitário. Que esta concepção depois transformaria num movimento político, influenciando o Maio de 68, e como obra inacabada, declarasse terminadas as suas actividades em 1972, não sem antes Guy Debord ter alertado para o perigo das derivas terroristas das Brigadas Vermelhas, dos comandos Baader-Meinhof... E a conversa levou, então, à Primavera de Destroços de 2001,
ao sample de William Burroughs sobre um junkie, no loop do Miguel Pedro, em "Humano", das boas-vindas das pegas rabudas, as ladronas das Jóias de Catasfiore de Tintim...
Da canibalização de Zeca Afonso, pela voz gutural em "Avô Cavernoso"...
Do Faladura, no Rivoli. Do "Nada a perder", sobre um personagem receptor de mails de proveniência desconhecida, na Guerra dos Balcãs, do bombardeamento da Sérvia... Que mais valia viver junto dos bandoleiros... Viver a Vida até ao fim, e não num quarto, manipulado pela tv!
& Etc. Aos "Gumes" de Nus, de 2004.
O professor,
Vitorino Almeida Ventura